Fim de tarde, mais um dia na minha adolescência sem novidades, somente um dia comum como qualquer outro. Meus amigos e eu decidimos sentar em frente a uma casa "mal assombrada" que ficava no fima da rua, passávamos algumas horas conversando sobre histórias de terror debaixo de um pequena castanheira.
Mais uma vez coração ... lá vamos nós!
Em nossa direção, vinha um garoto magro, alto, de pele clara, olhos verdes e grandes, uma boca incrivelmente vermelha e carnuda, foi de imediato o sentimento. Ele estava diante de mim quando parou a bicicleta, nos olhamos por alguns segundos até que ficamos sem graça.
Não tirava o olhar dele, desejando muito aqueles lábios. Ainda não nos conhecíamos, mas a atmosfera que nos cercava dispensava apresentações. Começamos a conversar sem cerimônias, a descontração e liberdade em palavras era notória diante do nosso grupo, aos poucos foram se retirando, cada um para sua casa, sobrando três pessoas debaixo do pé de castanha, meu amigo, ele (minha nova paixão nem um tanto avassaladora como as anteriores) e eu, era diferente as coisas entre nós, havia maturidade e cautela nos olhares e palavras. Em um momento repentino, surgiu um assunto que nos colocou diante de um desafio, lembro-me de sua reação quando me desafiou a beijá-lo, era de mistério e dúvida. Como estava em sua frente, resolvi levantar e aceitar o desafio, lhe dando um beijo casto e rápido, tão rápido que não pude sentir o calor dos teus lábios.
Resolvemos ir embora e ele me acompanhou com sua bike por alguns minutos até o meu portão, assim nos despedimos, sem cerimônias e sem palavras. Tudo era diferente com ele.
Passaram-se os dias; chegando na escola eu o vi entre os alunos, não me lembrava dele na escola, puderá, ele era rebelde e estava no último ano. Lá estava eu, mais uma vez, pega olhando para ele com olhares furtivos, sem demostrar meu interesse em beija-lo mais uma vez . Ele era mais velho, estava se formando na 8ª série e eu na 6ª.
Nos intervalos, era difícil nossa aproximação, ele pertencia ao um grupo mais maduro e era primo da garota mais popular do colégio, detalhe, não sei por quê, mas ela não simpatizava com a minha pessoa. Decidi não me aproximar dele.
Passaram os dias até que chegou o fim de semana, era noite quando resolvemos fazer uma pequena reunião em minha casa, assávamos batatas em um fogão a lenha entre as antigas paredes do meu quarto inacabado, ali estavam, meu amigo e duas primas, passávamos quase todo fim de semana entre aquelas paredes, conversando e depois subindo no telhado para observar as estrelas. Lembro-me do calor da lage e quão inumerosa eram as estrelas aquela noite; ouvi um bater de palmas e uma voz grossa a chamar pelo nome do meu amigo. Estava em cima do telhado quando vi aquela figura alta e magra, de lábios incrivelmente carnudos, ele entrou e olhou para cima onde eu estava no telhado, resolvi descer e me aproximar dele, mais uma vez. Já passavam das dez horas quando os pais começaram a chamar um por um dos integrantes do grupo, sobrando por último ele e eu... não sabia o que dizer, se mandava ele ir embora ou se o beijava. Não precisei pensar muito, em meios aos devaneios da minha mente, ele me surpreendeu com um beijo, este ainda mais demorado, mais intenso, mais cheio de vontade. Nunca tinha sentido aquelas sensações, os arrepios, as pernas bambas e um sentimento tórrido. Resolvi me afastar antes que as coisa ficassem um tanto quanto estranhas entre nós, estava confusa com o turbilhão de sensações que ele provocava em mim. Decidi juntar as brasas e guardar os espetos, já passavam das 23hs quando resolveu se despedir, me deu mais um beijo, desta vez mais suave.
Os dias foram se passando, e os fins de semana em meios as paredes do meu quarto era a oportunidade perfeita para nosso encontro. Todos já sabiam do nosso romance.
Em meio a conversas ele me fez a promessa que, naquela semana me apresentaria para todos do colégio como sua namorada, até então, ficávamos cada um com o seu grupo, sem palavras, somente troca de olhares fortuitos.
Chegou a tão esperada semana, enfim, todos saberiam que eramos um casal, mas isso não aconteceu... não era um bom dia certamente. Estava ensolarado, a frente a professora anunciava uma prova surpresa e pedia a todos que estudassem, quando de repente, o sinal do término da aula ecoava nos corredores da escola, meu coração saia pela boca pois sabia que naquele dia, ele iria assumir o nosso amor. Ao sair pela porta da sala de aula me deparei com uma cena de partir o coração. Sua prima popular e sua fiel amiga me cercaram no corredor das salas; quando voltei meus olhos para o pátio, tentei encarar aquele cena que embrulhava meu estômago e me dava um nó na garganta... era ele... abraçado a uma garota loira, até então, não havia notado a sua presença no colégio. Ela aparentava ser da mesma idade que a dele, mas o que importa, ele estava ali, diante dos meus olhos anunciando para todos ouvirem que, "aquela era a sua namorada".
Não sabia o que fazer, queria correr, sumir dali e chorar, mas aquelas brutamontes estavam diante de mim, com aquele sorriso de satisfação por verem a minha tristeza e vergonha diante daquela cena... então voltei para sala e chorei.
Alguns anos se passaram desde a última vez que o vi. Estava retornando para o bairro depois que meus pais se separaram, estava diferente, mais madura.
Era noite quando resolvi visitar a minha prima para jogar uma partida de pife, ela e seu namorado. Uma voz veio da janela, chamando pelo nome da minha prima, aquela voz era inconfundível, era ele... meu coração saltou pela boca quando o vi entrar pela porta, estava diferente, com um ar mais revoltado, com piercing pelo corpo e os cabelos mais curtos. Minha prima resolveu apimentar a brincadeira fazendo apostas, quem perdesse no jogo pagaria uma prenda... era tudo um plano. No começo ganhei algumas partidas, o clima já estava ficando chato, então resolvi perder e ver qual seria minha punição. Era o esperado para a noite... minha prima ditou a primeira punição.. beija-lo no peito. Me preparei para o feito da noite quando percebi, dois novos adereços em seu corpo, um piercing em cada um de seus mamilos, admito que me surpreendi ao ver o seu peito nu com os adereços brilhando a luz das velas, ao qual foram colocadas no quarto para tornar a jogo com mais suspense. Na penumbra, percebi o seu peito arfar com o toque dos meus lábios, toda aquele desejo por ele estava ali dentro de mim, mas a mágoa da humilhação não permitia nenhum sentimento bom por ele, queria que ele sofresse e chorasse.
Passaram-se alguns dias desde a nossa brincadeira, mais uma vez estávamos a sós, desta vez em meu quarto. Ele estava ali, diante de mim com um olhar arrependido me pedindo desculpas, no rádio começou a tocar a música da banda, " Silverchair - Open Fire", foi quando ele me pediu para namorar, se ajoelhou e começou a cantar a música para mim; por um momento fiquei feliz com a declaração, mas a mágoa era mais forte. Olhei duramente para o seu rosto, na minha cabeça surgia o plano maquiavélico para faze-lo sofrer, como planejado, assim aconteceu. Durante o meu plano fraquejei, deixei vencer pelo sentimento que tinha por ele, foi quando, arrependida lhe contei toda a verdade.
Naquela noite em especial, ele tinha em seu bolso um par de alianças para selar o nosso compromisso. Diante de toda verdade dita, eu vi em seus olhos a decepção que sentia, o ódio por te-lo traído. Meu coração se despedaçou por ter feito, jogando fora toda a oportunidade de ser feliz por um capricho da vingança.. ele se foi e por anos não mais nos falamos.
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