Era fim de semana quando meus pais decidiram ir a casa dos meus tios, mais um típico fim de semana com a família.
Meu pai tinha uma Brasília vermelha de brilho espelhado, passávamos as tardes de sábado encerando e polindo-a. Na época era um carro bom e popular nas ruas, era o orgulho do meu pai.
Depois de chegar a casa dos meus tios, fiquei entediada e resolvi ir até o carro para escutar musica do velho som da Brasília. Estava indo em direção ao carro, quando passou por mim um moleque destrambelhado, correndo atrás da bola em farrapos com meu primo e outros garotos da rua; a minha vontade era de lhe falar umas boas, porém, mais uma vez fiquei presa ao feitiço de uma paixão instantânea em minha vida. Lá estava ele ... de pele branca, magro, alto, cabelos loiros e lisos até os ombros, sem camisa e de shorts vermelho, realmente era uma visão maravilhosa... então levantou o rosto, jogou os cabelos longos e loiros para trás das orelhas e me olhou; lembro-me do espanto que fiquei ao ver aquela beleza, parecia uma pintura de Michelangelo. Ele era de tirar o fôlego... olhos verdes, intenso e lábios vermelhos como morango, entre eles um sorriso, que me fez mais uma vez, sentir como uma manteiga derretendo por dentro ... lá vamos nós !
Passava os dias pensando nele, estava ansiosa para que logo chegasse o fim de semana e assim poder vê-lo mais uma vez.
Os dias se arrastavam e não aguentava mais. Decidida a saber mais sobre aquele garoto, peguei o telefone e liguei para minha tia, com a intenção de quem não quer nada, somente para saber como estavam as coisas e lhe dizer que estava com saudades, uma desculpa para ir visitá-la todos os fins de semana. Liguei ... do outro lado da linha estava meu primo, o que era um alívio, pois não precisava falar por longos minutos com minha tia, não que eu não quisesse falar com ela, mas o meu principal objetivo era falar com meu primo, já que ele era amigo do garoto destrambelhado ao qual meu coração instantaneamente se apaixonou. Meus amores platônicos e eu, começava a se repetir em minha mente está frase desde o meu último fracasso no quesito "amor a primeira vista".
Não me delonguei, fui direto ao assunto com meu primo. Enchendo-o de perguntas sobre o meu "segundo amor"... de imediato ele sorriu e disse : _ "estava na cara que você gostou dele e vou lhe dizer, ele também está afim de você." Fiquei muda no telefone, tentando absorver aquelas palavras que não esperava... "está afim de você", como pode um garoto daquele se interessar por uma garota como eu? Sem curvas, magra e de pernas longas, cabelos castanhos e rebeldes. Ele havia me notado e correspondido aos meus sentimentos.
Uma semana se passara desde que o vira pela primeira vez.
Ao chegar na casa de minha tia, com vergonha, pois sabia que ele também havia se interessado por mim, corri para dentro da casa sem olhar para os lados.
Era tarde quando decidi sair na rua. Abrindo os portões eu vi aquela beleza, como pintura de Michelangelo, bem em minha frente, correndo atrás da mesma bola em farrapos que quase me atropelou há alguns dias atrás, não pude conter a expressão de "estou apaixonada" quando ele olhou para mim, meu coração quase saiu pela boca quando veio me chamar para entrar na brincadeira. Moleca como sempre fui, resolvi jogar uma partida com eles e ter a oportunidade de toca-lo e de ser tocada enquanto disputávamos aquela bola em farrapos.
Já era noite quando o jogo terminou e decidimos ficar sentados no passeio, conversávamos sobre tudo e sobre nada, em alguns momentos eu o percebia me olhar.
Amanheceu, a mesa do café da manhã era ótima, estava feliz por ficar tão perto de quem gostava e por saber que estava sendo correspondida. Decidi fazer uma carta simples e pedi ao meu primo que lhe entregasse, me lembro das palavras e do suspense que a carta contia.
_"Você aceita ficar comigo ? marque sim ou não", havia dois pequenos quadrados para que ele assinalasse. Meu coração ficou em pulos, corpo tremia as mãos suavam de ansiedade pela resposta. Meu primo estava demorando demais, de repente, ouvi um barulho vindo da caixa de correios, curiosa fui olhar e era a minha carta toda dobrada com o "sim" assinalado de vermelho e abaixo dizia : _"hoje não posso, vou sair com meus pais." , dei um pulo quando ouvi outro barulho na caixa de correios, era ele me mandando um bilhete pedindo para esperar ate a noite pois ele voltaria cedo e então poderíamos ficar. Não sabia se ficava feliz ou alegre, pois os meus pais já haviam combinado de me buscarem no fim da tarde. Fui até a caixa de correio da sua casa, escondida e com medo de ser surpreendida, deixando uma carta dizendo que iria embora no fim da tarde e que, talvez na próxima semana estaria novamente na casa da minha tia.
Passaram-se alguns dias e o telefone tocou, ao atender me surpreendi e quase infartei quando ouvi a voz dele me dizendo: _"Oi ! Recebi sua carta, você vai para casa da sua tia este fim de semana?" . Naquele momento estava muda não sabia se dizia sim primeiro a sua pergunta ou se soltava , "Oi!" , que estava engasgado pela surpresa... decidi soltar os dois de uma vez , "Oi! Sim!" . Desconfiado ele perguntou: _"esta tudo bem? você pode conversar?". Lembro-me que na época passava a novela do SBT, "Chiquititas". Passávamos minutos conversando ao telefone, até chegar o dia em que nos encontraríamos, conversas adolescentes mas que na época eram maduras para nossa idade.
O fim de semana chegou, era sábado, a noite estava quente. Resolvi pedir aos meus pais para dormir na casa da minha tia, mas verdade a intenção era para ficar com o meu "Michelangelo", havia uma missa a noite e estava tudo planejado, nos encontraríamos atras do muro da igreja, era escuro e perfeito para o nosso segredo. Foi então que o vi descer as escadas, com os cabelos sendo jogados para frente, aquele corpo esbelto e uma boca de tirar o fôlego... ele se aproximou e sem cerimônias me deu um beijo casto, lembro-me do calor e o quanto eram macios, me envolveu em um abraço e perdidos ficamos por minutos naquele beijo... que beijo! Era diferente com ele, mas o tempo e a distância se encarregaram de nos afastar.
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